A revolução das agtechs no Brasil
O setor de tecnologia agrícola está em plena expansão, e as startups AgTech Brasil vêm ganhando destaque com soluções baseadas em inteligência artificial. Essas empresas têm levado inovação para todas as pontas da cadeia produtiva, desde o planejamento do plantio até a comercialização, passando por monitoramento inteligente, rastreabilidade, automação e gestão preditiva.
Em um país continental e agrícola como o Brasil, onde o agronegócio representa quase 25% do PIB e responde por mais de 40% das exportações, a união entre tecnologia e campo deixou de ser tendência para se tornar uma estratégia de sobrevivência e competitividade.
Nesse cenário, a inteligência artificial ocupa um papel central. Startups que antes ofereciam apenas plataformas de gestão ou coleta de dados, agora incorporam algoritmos capazes de prever safras com alta precisão, detectar pragas antes que se espalhem, analisar imagens de satélite em tempo real e gerar insights automatizados para tomada de decisão no campo.
A disponibilidade de dados agrícolas, o avanço da conectividade rural e o aumento do interesse de investidores vêm consolidando o Brasil como um dos principais hubs de inovação agrícola da América Latina, com mais de 800 agtechs mapeadas até 2024, segundo dados do Distrito.
Neste artigo, vamos explorar o ecossistema brasileiro de agtechs com foco em IA: entender quem são as startups mais promissoras, como está o fluxo de investimentos, quais hubs estão impulsionando a inovação e como grandes empresas, universidades e governos estão colaborando com esse movimento. Também traremos casos reais e inspiradores de empreendedores brasileiros que estão transformando o agro com soluções inovadoras, inclusive em regiões que historicamente estavam à margem da digitalização.
Mais do que um fenômeno tecnológico, o que estamos presenciando é o nascimento de um novo modelo de agronegócio — mais inteligente, conectado e colaborativo.
Panorama atual do ecossistema de agtechs
O Brasil conta hoje com um dos ecossistemas de agtechs mais vibrantes do mundo, com destaque para a inovação voltada à realidade da produção agrícola tropical, altamente escalável e desafiadora. Segundo o relatório “Agtech Mining Report” do Distrito, já são mais de 800 startups ativamente mapeadas atuando no agronegócio nacional, oferecendo mais de 1.000 soluções específicas para o setor.
Essas startups atuam desde o pré-plantio até o pós-colheita, passando por gestão de risco climático, comercialização, biotecnologia e pecuária de precisão. A inteligência artificial vem sendo aplicada em diversos pontos da cadeia, com destaque para:
- Monitoramento de cultivos via satélite e drones com IA
- Análise preditiva de produtividade e pragas
- Plataformas de gestão agrícola com IA embarcada
- Automação de processos com robôs e sensores conectados
- Soluções de rastreabilidade e certificação via blockchain
Segmentação por áreas de atuação
As agtechs brasileiras com foco em IA estão distribuídas em várias frentes, sendo as principais:
- Gestão e monitoramento agrícola (32%)
- Marketplaces e plataformas de comercialização (21%)
- Tecnologia para pecuária e rastreabilidade animal (14%)
- Biotecnologia e insumos inteligentes (12%)
- AgFintechs e crédito digital rural (9%)
- Clima e sustentabilidade (ESG/Carbono) (7%)
- Logística e pós-colheita (5%)
Essa diversidade mostra que o ecossistema está em franca expansão, atendendo problemas reais do setor agrícola com soluções digitais e escaláveis, muitas vezes com uso intensivo de dados e IA.
Hubs de inovação e distribuição geográfica
Embora São Paulo concentre o maior número absoluto de agtechs, outros polos estão ganhando destaque, como:
- Piracicaba (SP) – com o AgTech Garage, um dos maiores hubs de inovação agrícola da América Latina
- Londrina (PR) – referência em biotecnologia e agricultura de precisão
- Uberlândia e Patos de Minas (MG) – forte presença de cooperativas e produtores tecnificados
- Cuiabá e Rondonópolis (MT) – foco em soluções para grãos e conectividade rural
- Pelotas (RS) – emergindo com foco em inovação para pequenas propriedades e rastreabilidade
Estágio de maturidade do ecossistema
A maioria das agtechs brasileiras ainda está em estágios iniciais ou intermediários (pré-seed, seed ou série A), mas já se nota um amadurecimento do mercado. Algumas startups estão expandindo para fora do Brasil, entrando em Séries B e C e sendo alvo de grandes rodadas de investimento.
Comparado a países como Estados Unidos, Israel ou Holanda, o Brasil ainda tem desafios estruturais, mas tem um diferencial competitivo forte: conhece profundamente os desafios locais, e por isso, muitas soluções desenvolvidas aqui são altamente adaptáveis a outros mercados agrícolas emergentes.
Principais startups brasileiras de IA para o agro
O Brasil tem se destacado globalmente não apenas pela força do seu agronegócio, mas também pela capacidade de criar soluções digitais alinhadas com os desafios e oportunidades locais. As startups que combinam IA com agricultura de precisão, gestão de dados e rastreabilidade estão na linha de frente dessa transformação.
A seguir, reunimos algumas das AgTechs brasileiras mais relevantes no uso de IA, com destaque para suas áreas de atuação, tecnologias e diferenciais.

Monitoramento e inteligência territorial
🔹 Agrotools
Com mais de 15 anos de mercado, a Agrotools é referência em soluções de inteligência territorial para o agro. Utiliza big data e IA para monitorar riscos climáticos, ambientais, produtivos e reputacionais. Sua plataforma é usada por grandes players do setor para gestão de risco, crédito e compliance ESG.
🔗 agrotools.com.br
🔹 IDGeo
Especializada em monitoramento agrícola com imagens de satélite e análise preditiva, a IDGeo usa algoritmos de IA para identificar padrões de produtividade, pragas, falhas de plantio e erosão. Ganhou destaque ao receber aportes de fundos especializados e ampliar sua atuação para cooperativas e seguradoras agrícolas.
Sistemas de gestão agrícola com IA
🔹 Solinftec
Um dos maiores cases de sucesso do Brasil no agro digital, a Solinftec desenvolve sistemas de automação e gestão agrícola com IA embarcada, especialmente para grandes operações. Atua com sensores, conectividade e uma plataforma de dados capaz de gerar alertas em tempo real e recomendações personalizadas com base em aprendizado de máquina.
🔗 solinftec.com
🔹 Aegro
A Aegro oferece um sistema de gestão agrícola focado em pequenos e médios produtores. Sua plataforma utiliza IA para automatizar relatórios, cruzar dados de campo e gerar análises de rentabilidade, com foco em simplicidade e praticidade para o dia a dia da fazenda.
🔗 aegro.com.br
Pecuária de precisão e saúde animal
🔹 CowMed
A startup gaúcha é pioneira no Brasil no uso de coleiras inteligentes com sensores e IA para monitorar o comportamento de vacas leiteiras. A solução permite prever doenças, detectar cio e ajustar alimentação, aumentando produtividade e bem-estar animal. CowMed é considerada referência em pecuária 4.0.
🔗 cowmed.com.br
🔹 Ideagri
Mais focada em gestão zootécnica e sanidade animal, a Ideagri aplica modelos preditivos baseados em dados históricos para melhorar o manejo e a rentabilidade na pecuária de corte e leite.
Rastreabilidade e blockchain
🔹 Safe Trace
Startup especializada em rastreabilidade de alimentos e certificação de origem, utilizando blockchain e IA para monitorar todas as etapas da cadeia produtiva. Sua tecnologia é aplicada em commodities como café, carne, soja e frutas, agregando valor ao produto final e atendendo a exigências de mercados internacionais.
🔹 AgTrace
Focada em agricultura regenerativa e rastreabilidade sustentável, a AgTrace aplica IA para validar práticas de baixo carbono no campo, com grande potencial de integração com mercados de crédito de carbono.
Startups emergentes a serem observadas
- Farms.io – IA para recomendação de plantio com base em dados meteorológicos hiperlocais
- Pastar – Reconhecimento de pastagem via imagens de satélite com machine learning
- AIAgro – IA generativa para automatização de relatórios agronômicos
- SoilTech – Análise preditiva de fertilidade do solo com sensores e deep learning
O que une todas essas empresas é a capacidade de traduzir dados complexos em soluções práticas e acionáveis no campo, com foco em aumentar produtividade, reduzir custos e facilitar a tomada de decisão — sempre com apoio da inteligência artificial.
O papel dos investimentos de venture capital
O avanço das agtechs brasileiras não seria possível sem o apoio crescente de investidores de risco que apostam em inovação no agronegócio. Nos últimos cinco anos, o Brasil vem consolidando sua posição como o principal mercado de agtechs da América Latina, e o capital de risco tem sido fundamental para sustentar esse movimento.
Segundo dados do Distrito, os investimentos em startups do agronegócio brasileiro mais que quadruplicaram entre 2019 e 2023, passando de R$ 92 milhões para mais de R$ 370 milhões anuais, mesmo em um cenário macroeconômico desafiador.
Panorama dos aportes e rodadas
A maior parte dos investimentos está concentrada nas fases seed (semente) e série A, refletindo um ecossistema ainda em amadurecimento. No entanto, começam a surgir rodadas série B e C, especialmente em startups com tração comprovada, como a Solinftec, que já captou dezenas de milhões de dólares e iniciou internacionalização.
Áreas que mais atraem investimentos:
- IA aplicada ao monitoramento e à predição agrícola
- Gestão inteligente e automação no campo
- Pecuária de precisão e rastreabilidade
- Carbon farming e sustentabilidade (ESG/AgTechs verdes)
- AgFintechs com foco em crédito e seguros agrícolas
Fundos atuantes no Brasil
O setor já atrai diversos fundos especializados em agronegócio, inovação ou impacto, incluindo:
- SP Ventures – um dos fundos mais ativos em agtechs na América Latina
- Maya Capital – com foco em impacto e modelos escaláveis no campo
- BB Ventures – braço de venture capital do Banco do Brasil
- AgVentures (do Grupo SLC Agrícola) – fundo corporativo com foco estratégico no agro
- Vox Capital – focado em negócios com impacto social e ambiental positivo
Além disso, grandes empresas do setor — como Basf, Bayer, John Deere, Nutrien, entre outras — também atuam como investidores estratégicos em startups, via programas de inovação aberta e corporate venture capital.
Perfil dos investidores: independentes vs. corporativos
Os investidores do ecossistema agro digital no Brasil se dividem em dois grandes grupos:
- Independentes: fundos de VC tradicionais, que buscam alto retorno financeiro e valorização de equity
- Corporativos: empresas do setor que investem por alinhamento estratégico, integração de soluções ou inovação de mercado
Essa combinação é positiva, pois traz fôlego financeiro e inteligência de mercado para as startups, além de acelerar parcerias, validação técnica e escalabilidade comercial.
Hubs de inovação e aceleradoras no setor
A inovação no agronegócio brasileiro tem ganhado força com o surgimento de hubs tecnológicos, parques de inovação e aceleradoras que atuam como pontos de encontro entre startups, grandes empresas, produtores e pesquisadores. Esses ambientes estimulam a cocriação de soluções, oferecem infraestrutura para testes e validam tecnologias aplicadas ao campo.
Principais hubs e polos de agtechs no Brasil
🔹 AgTech Garage (Piracicaba/SP)
Considerado um dos maiores hubs de inovação agrícola da América Latina, o AgTech Garage conecta mais de 80 grandes empresas com centenas de startups. Atua como plataforma de inovação aberta, promovendo desafios, programas de aceleração e testes de soluções em campo.
🔗 agtechgarage.com
🔹 ParkTec (Londrina/PR)
Com forte base acadêmica e foco em biotecnologia, o parque tecnológico de Londrina reúne startups e centros de pesquisa voltados à agricultura de precisão, bioinsumos e manejo sustentável. Tem parcerias com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná e a Embrapa Soja.
🔹 CITSmart Agro (Cuiabá/MT)
Criado para apoiar startups com foco em grãos e logística agrícola, o CITSmart Agro oferece estrutura para testes em áreas produtivas e acesso direto a produtores do cerrado mato-grossense. É apoiado por cooperativas e empresas do setor.
🔹 Supera Parque (Ribeirão Preto/SP)
Ligado à USP, o Supera abriga startups de base científica aplicadas ao agro, incluindo soluções com IA, bioinformática e sensoriamento remoto.
Programas de aceleração específicos para o agro
🔸 Microsoft & PwC – Agtech Innovation
Iniciativa que conecta startups com foco em IA, sustentabilidade e automação a grandes empresas do setor. Oferece mentoria técnica, estrutura de testes e acesso a potenciais investidores e parceiros.
🔗 pwc.com.br
🔸 SP Ventures e Liga Ventures – Liga Agro
Programa de aceleração que une agtechs em estágio inicial a grandes companhias do setor para desenvolvimento de pilotos e provas de conceito com foco comercial.
🔸 InovaBra (Bradesco) – embora não exclusivo para agro, já acelerou diversas agtechs com foco em crédito rural, análise de risco climático e blockchain para rastreabilidade.
O papel das universidades e centros de pesquisa
Instituições como USP, ESALQ, UFV, UFG, UNESP e UFSM têm sido fundamentais na formação de talentos, na criação de spin-offs e no apoio técnico a startups. Além disso, centros como a Embrapa Digital e o Instituto Eldorado têm atuado na validação de soluções tecnológicas com viés agronômico, climático e biotecnológico.
Essa articulação entre pesquisa, mercado e empreendedorismo é um dos diferenciais do ecossistema brasileiro de inovação no agro.
Parcerias entre startups, grandes empresas e governo
No ecossistema AgTech brasileiro, a inovação raramente acontece de forma isolada. Pelo contrário: o modelo que tem se consolidado é o da inovação aberta, onde startups, corporações, cooperativas, universidades e governos compartilham recursos, dados, estrutura e conhecimento para desenvolver soluções com impacto real no agro.
Essas parcerias estratégicas têm permitido que ideias com alto potencial tecnológico sejam testadas em escala real, com suporte técnico, infraestrutura e acesso ao mercado.

Modelos de inovação aberta no agronegócio
O modelo de inovação aberta mais comum no agro envolve:
- Startups desenvolvendo soluções específicas (ex: IA para previsão de pragas)
- Empresas do setor (ex: Bayer, John Deere, Cargill) atuando como aceleradoras ou compradoras de tecnologia
- Cooperativas fornecendo áreas de teste e feedback técnico
- Governo apoiando com políticas públicas e crédito para inovação
Essa combinação permite reduzir o risco de inovação, melhorar a aderência das soluções à realidade do campo e acelerar a curva de aprendizado dos produtores e das próprias startups.
Casos de colaboração bem-sucedida
🔹 Solinftec + Raízen
A Solinftec, uma das maiores agtechs brasileiras, firmou parceria com a Raízen (do setor sucroalcooleiro) para implantar seu sistema de IA em grandes áreas de cana-de-açúcar. A colaboração permitiu testar e validar algoritmos em tempo real, otimizando frotas agrícolas e reduzindo custos operacionais.
🔹 Agrotools + Santander
O banco utiliza as soluções de inteligência territorial da Agrotools para avaliar risco climático e ambiental na concessão de crédito rural. A parceria gerou modelos preditivos de risco mais assertivos, com impacto direto na eficiência do financiamento agrícola.
🔹 IDGeo + Cooperativas do Paraná
A IDGeo estabeleceu parceria com cooperativas do Paraná para aplicar IA em imagens de satélite e detectar falhas no plantio. O projeto piloto permitiu ajustes técnicos com economia de insumos e ganho de produtividade nas safras seguintes.
🔹 CowMed + produtores independentes no Sul
Em parceria com associações locais, a CowMed implantou suas coleiras inteligentes em propriedades de leite para prever cio e doenças. O resultado foi um aumento de até 20% na produção de leite e maior bem-estar animal.
Iniciativas de fomento à inovação
Além das parcerias privadas, o setor público tem apoiado projetos por meio de:
- Editais de inovação tecnológica (Finep, Embrapii, Sebrae)
- Linhas de crédito com taxa subsidiada para testes de soluções tecnológicas (BNDES, MAPA)
- Programas estaduais de incentivo à inovação agrícola (ex: AgroSP, InovaRS, AgroInovaGO)
Esses incentivos estimulam o surgimento de modelos cooperativos de inovação, onde startups, produtores e empresas compartilham os benefícios das novas tecnologias.
Desafios específicos das agtechs brasileiras
Apesar do crescimento expressivo do ecossistema, empreender no agro com tecnologia — especialmente com inteligência artificial — ainda impõe desafios únicos no Brasil. Muitos deles são ligados à realidade do campo, à infraestrutura limitada e à complexidade da cadeia produtiva agrícola, exigindo resiliência, criatividade e adaptação por parte das startups.
Ciclos mais longos de validação em campo
Diferente de outros setores, como fintechs ou edtechs, as agtechs operam em ciclos sazonais, o que significa que o tempo para testar e validar uma tecnologia pode levar de 6 meses a mais de 1 ano, dependendo da cultura agrícola envolvida.
Isso torna o ciclo de desenvolvimento mais lento e exige capital paciente e comprometimento de longo prazo por parte dos investidores e dos parceiros envolvidos.
Acesso a dados de qualidade para treinamento de IA
Modelos de IA eficazes dependem de dados amplos, confiáveis e variados — e esse é um dos gargalos mais críticos para agtechs no Brasil. Muitos dados agronômicos ainda são:
- Fragmentados e descentralizados
- Mantidos em planilhas locais ou até em papel
- Protegidos por políticas restritivas de grandes empresas ou entidades públicas
- Gerados com baixa frequência ou baixa qualidade técnica
Sem acesso a dados robustos, as startups enfrentam dificuldades para treinar modelos preditivos com acurácia, gerar recomendações personalizadas ou automatizar diagnósticos em escala.
Necessidade de presença local vs. escalabilidade
O Brasil é imenso e diverso — o que funciona no cerrado mato-grossense pode não funcionar no semiárido nordestino. Isso obriga muitas agtechs a manter estruturas regionais de atendimento, implantação e suporte técnico, o que encarece a operação e dificulta a escalabilidade nacional.
Essa necessidade de presença local desafia os modelos tradicionais de startups baseadas em SaaS puro, exigindo equipes híbridas (tecnologia + campo) e relacionamentos sólidos com cooperativas e consultores agronômicos.
Conectividade e infraestrutura como gargalos
Como vimos em artigos anteriores, mais de 70% das propriedades rurais brasileiras ainda não têm acesso à internet adequada, o que limita diretamente o uso de tecnologias que dependem de nuvem, dados em tempo real ou conectividade constante.
Muitas startups precisam desenvolver soluções que funcionem offline ou com sincronização eventual, ou então fornecer infraestrutura mínima (como gateways, antenas ou sensores LoRa) como parte do pacote de inovação — o que adiciona complexidade e custo ao modelo de negócio.
Desafios de monetização e modelos de negócio
Outro ponto sensível está no modelo de precificação. Muitos produtores, especialmente os de pequeno e médio porte, ainda têm dificuldade em investir em tecnologia, mesmo com promessas de ROI rápido. Isso obriga as startups a criar modelos alternativos, como:
- Cobrança por hectare monitorado
- Modelos freemium com funcionalidades básicas gratuitas
- Parcerias com cooperativas para contratação coletiva
- Assinaturas mensais com custo variável vinculado à safra
Encontrar o equilíbrio entre escalabilidade, acessibilidade e sustentabilidade financeira continua sendo um dos grandes desafios para agtechs no Brasil.
Tendências e oportunidades no mercado
O ecossistema de agtechs no Brasil tem evoluído rapidamente, e o uso de inteligência artificial abre uma nova fronteira de oportunidades, especialmente com a convergência de tecnologias, o foco em ESG e a expansão internacional de soluções tropicais. As startups que conseguirem alinhar inovação com aplicabilidade no campo terão vantagem competitiva nos próximos anos.
Áreas com maior potencial de crescimento
🔸 Gestão de dados agrícolas
Plataformas que integram dados de sensores, drones, máquinas e clima com algoritmos de IA para gerar recomendações acionáveis ganham destaque. O desafio não é apenas coletar dados, mas transformá-los em decisões em tempo real.
🔸 Carbon farming e sustentabilidade
Com o crescimento do mercado de créditos de carbono e rastreabilidade ambiental, soluções que auxiliam na medição, validação e certificação de práticas sustentáveis serão cada vez mais procuradas. IA e blockchain estão na base dessas tecnologias.
🔸 Automação com IA embarcada
Equipamentos agrícolas autônomos, tratores conectados e robôs que aplicam insumos com precisão milimétrica já são realidade. Startups que desenvolvem softwares embarcados com IA preditiva tendem a crescer com a mecanização inteligente.
🔸 AgFintechs com inteligência de risco
Startups que unem IA, clima, produtividade e análise de crédito podem revolucionar o acesso a financiamento e seguros agrícolas, tornando o agro mais digital e menos burocrático.
Convergência de tecnologias (IA, IoT, blockchain)
O futuro não está em uma tecnologia isolada, mas na integração entre IA, sensores conectados (IoT), imagens de satélite e blockchain. Plataformas que conseguem reunir essas frentes terão capacidade de oferecer:
- Previsões hiperlocalizadas
- Gestão completa da fazenda
- Rastreabilidade em tempo real
- Relatórios de sustentabilidade automatizados
- Tomada de decisão guiada por dados
Essa convergência representa a base da fazenda inteligente e autônoma, uma realidade cada vez mais próxima no Brasil.
Oportunidades em ESG e agricultura regenerativa
Com consumidores e mercados exigindo transparência, baixo impacto ambiental e governança de dados, as startups que atuam em:
- Medição de emissões de carbono e pegada hídrica
- Validação de práticas regenerativas no solo e biodiversidade
- Automação de relatórios ESG
- Certificações ambientais digitais
estão na mira de investidores de impacto, fundos verdes e grandes empresas exportadoras.
Internacionalização de startups brasileiras
Muitas soluções criadas por agtechs brasileiras têm potencial global, especialmente em mercados tropicais e emergentes com desafios semelhantes — como África, América Central e Sudeste Asiático.
Casos como o da Solinftec (presente nos EUA e América Latina) e da CowMed (exportando tecnologia para América do Sul) mostram que o agro brasileiro não só é referência em produção, mas também em inovação escalável.
Startups que investirem em:
- Suporte multilíngue
- Escalabilidade técnica da plataforma
- Conformidade regulatória internacional
- Parcerias com distribuidores e cooperativas locais
estarão prontas para levar a tecnologia do campo brasileiro para o mundo.
Casos de sucesso e histórias inspiradoras
Por trás das inovações que estão revolucionando o agro brasileiro, há empreendedores visionários, engenheiros de dados com raízes no campo e equipes multidisciplinares que estão criando soluções capazes de transformar realidades produtivas e ambientais.
A seguir, destacamos algumas histórias que mostram o potencial transformador das agtechs brasileiras — e como a inteligência artificial tem sido o motor dessa evolução.

Solinftec: De startup brasileira a player global
Fundada em 2007 por um grupo de engenheiros cubanos no interior de São Paulo, a Solinftec começou desenvolvendo soluções para o setor sucroenergético. Com o tempo, evoluiu para se tornar uma das maiores agtechs do mundo, com presença no Brasil, EUA e América Latina.
Sua plataforma combina IA, sensores embarcados, big data e conectividade em tempo real para otimizar operações agrícolas. A empresa foi pioneira no desenvolvimento de assistentes virtuais para o campo, como a “ALICE”, que toma decisões operacionais automaticamente com base em dados de máquinas, clima e solo.
A Solinftec já levantou diversas rodadas de investimento (incluindo Série B e C) e é referência global em agricultura digital, provando que é possível escalar tecnologia brasileira para o agro mundial.
🔗 solinftec.com
IDGeo: IA para análise de satélites a serviço da produtividade
A IDGeo nasceu com o objetivo de tornar a agricultura de precisão mais acessível para produtores médios e cooperativas. Sua tecnologia usa IA para interpretar imagens de satélite e gerar mapas de vigor vegetativo, falhas de plantio, estresse hídrico e estimativas de produtividade.
A startup firmou parcerias com grandes cooperativas no Paraná e em Santa Catarina, validando suas soluções em escala e recebendo aportes para expandir nacionalmente.
Com interface simples e foco em resultado prático, a IDGeo tem se destacado pela usabilidade e acurácia, conquistando espaço em regiões que antes dependiam de consultorias tradicionais.
CowMed: Pecuária de precisão com coleiras inteligentes
No Sul do Brasil, a CowMed criou uma solução de coleiras com sensores e IA para monitoramento do rebanho leiteiro. As coleiras identificam comportamento anormal, detectam cio e anteveem possíveis doenças — permitindo intervenções rápidas, redução de perdas e melhoria do bem-estar animal.
A startup já atende centenas de propriedades no RS, SC e PR, e está iniciando sua expansão internacional, com foco em América Latina. Seu modelo de negócio por assinatura torna a tecnologia acessível até para pequenos produtores.
Safe Trace: Rastreabilidade e sustentabilidade com blockchain
A Safe Trace é referência em rastreabilidade de alimentos com uso de blockchain e inteligência artificial. Atende empresas exportadoras de café, soja e carne, garantindo a origem e a sustentabilidade dos produtos para mercados exigentes como Europa e EUA.
Com sua tecnologia, produtores conseguem agregar valor aos seus produtos, obter certificações internacionais e acessar novos canais de comercialização. A empresa vem crescendo com apoio de fundos de impacto e programas de aceleração.
Startups que nasceram da necessidade no campo
Muitas agtechs brasileiras surgiram de dentro do campo, fundadas por produtores, filhos de agricultores ou profissionais do agro que sentiram a dor da ineficiência e decidiram resolver o problema com tecnologia.
Esse perfil híbrido — conhecimento agronômico + visão tecnológica — tem gerado soluções extremamente aderentes à realidade produtiva e com alto impacto.
Construindo o futuro do agro brasileiro com inovação
O ecossistema de agtechs no Brasil é hoje um dos mais promissores do mundo — e a inteligência artificial tem sido a engrenagem silenciosa, mas poderosa, que está conectando dados, decisões e resultados no campo. Com mais de 800 startups ativas, centenas de soluções em operação e um fluxo crescente de investimentos, o agro brasileiro vive um momento histórico de transformação tecnológica.
Essas startups estão rompendo barreiras de conectividade, traduzindo dados complexos em ações simples e democratizando o acesso à tecnologia, mesmo em regiões remotas ou entre pequenos produtores. E estão fazendo isso com soluções que entendem o Brasil real — suas safras, seus ciclos, seus desafios logísticos e climáticos.
A força da colaboração
O sucesso desse movimento não acontece sozinho. Ele depende de colaboração entre empreendedores, empresas tradicionais, universidades, cooperativas e políticas públicas. Quando esses atores se unem, surgem hubs de inovação vibrantes, parcerias produtivas e tecnologias que impactam milhares de hectares e vidas.
Oportunidades para empreendedores e investidores
Para quem deseja empreender ou investir no agro, o momento é agora. A demanda por soluções digitais é crescente, o campo está cada vez mais conectado e o setor precisa de inovação para manter sua competitividade, atender exigências ambientais e alimentar o mundo de forma sustentável.
Startups com foco em IA, sustentabilidade, rastreabilidade, automação e crédito digital têm terreno fértil para crescer, seja no Brasil ou em mercados tropicais semelhantes.
O papel das agtechs na competitividade global do agro brasileiro
O Brasil já é potência na produção. Agora, caminha para ser também uma potência em inovação agrícola. E as agtechs estão na linha de frente desse movimento — redefinindo o que é ser competitivo no século XXI, onde o diferencial não está apenas na produtividade, mas na inteligência com que se produz.
Veja aqui como a IA está transformando o agro brasileiro de ponta a ponta
O futuro do agro brasileiro será cada vez mais conectado, inteligente e sustentável — e será construído por quem tem coragem de inovar hoje.